segunda-feira, 21 de abril de 2008

Ponto de Situação #4 - Experiência Taxidermia

A minha primeira Experiência de Taxidermia finalmente foi levada a cabo. Nos últimos dias andei a colectar pacotes de coragem para me atirar de cabeça na prática efectiva de embalsamamento animal.
O texto publicado nesta mensagem servirá então para documentar aquilo que, o vídeo e as fotografias por si só, não possuem a capacidade de transmitir. Irei escrever sobre as sensações, os odores, os pensamentos e toda a envolvente.
Iniciei este capítulo do Projecto, indo à Arca Congeladora (aquilo a que mais recentemente chamo de "Arca de Noé") recolher uma das iguanas mais pequenas que tinha lá dentro (gentilmente cedida pelo Sr. Arlindo, alguém que escrevo muito neste blogue). Dirigi-me com ela para o meu local de trabalho (a cave de minha casa) e coloquei-a em cima da mesa para descongelar. Até aquele momento, não senti odores muitos intensos. Tal condição mudou após ter esperado que a iguana descongelasse e incidisse o primeiro corte na zona abdominal. O cheiro concentrado no interior da dura pele do pequeno réptil aflorou, evasivamente, à superfície, contagiando toda a cave e as escadas interiores de acesso ao rés-do-chão. Entranhou-se na camisola, na t-shirt, nas calças, nas sapatilhas, nas luvas, nas meias. Lembro-me de me questionar no pensamento "como é que um animal tão pequeno pode cheirar tão horrivelmente". É o primeiro factor que evidencía a distinção entre a vida e a morte. O cheiro que senti é tão facilmente traduzível por palavras, como incomparável com qualquer outra coisa. Cheira a iguana morta(ponto)


Enfim ... contagiado o espaço, só me resta prosseguir. A música foi a minha principal força. Nem sei ao certo o que estava a ouvir. Algumas músicas electro que o meu irmão me tinha acabado de passar para o computador estavam "aos berros" a ser reproduzidas ao longo da sala. O único papel da música naquele momento era o de substituir a atenção do olfacto pela audição. Ao manter a concentração focada na música abstraía-me do cheiro. Era facto e por mim tudo bem.
À medida que continuava a libertar a pele do resto do corpo, delicadamente, com o auxílio do bisturi, imagens do livro técnico de Taxidermia que vou revendo (Taxidermia - Embalsamamento de Pássaros e Mamíferos da autoria de Harry Hortjaa) surgem-me sob a forma de sinapses electricamente estimuladas. Nunca tinha lido como embalsamar um réptil, mas deduzi e bem (acho eu) que não haveria de estar muito longe da prática de taxidermia em mamíferos que tinha lido, re-lido e enjoado de ver imagens e videos.
"Corta aqui e ali, agora dá a volta, solta, cuidado com as patas, isso, muito bem, ups ... não interessa, para a próxima já não me engano. Continuando". Pensava eu. Fiz um conjunto de asneiras. Saudáveis. Nada de grave. Afinal de contas esta experiência serviu para isso mesmo. "Quanto mais asneiras fizer, mais asneiras me vou lembrar que fiz na Taxidermia Final".
Acabei esta minha experiência com um ... "Isto nem é assim tão difícil, embora já não sinta o meu próprio cheiro" ...

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